terça-feira, 14 de agosto de 2012

O dia de Janeiro em que comi a tal laranja...



Não sei se era mesmo Janeiro, mas sei que  estava frio, mesmo muito frio.
Aquele frio que se entranha e se espalha por todo o corpo.
Sei que estava em casa, felpuda e quentinha, provavelmente a beber café quente e forte e a estudar.
Mas como o meu estudo tem horas incertas e pouco simpáticas de desconcentração, a coisa mais certa é ter divagado para outras paragens.
E foi nessas paragens, entre aromas de café e de um Inverno solarengo a entrar sorrateiro na janela e a bater-me na cara, que entre tudo o que poderia ser simples e descomplicado eu compreendi o que queria fazer para a vida.
Durante muito tempo adorei comer. Mas comia não pelo mesmo prazer de agora, mas por um outro prazer, açucarado e de rápida absorção, sem compreensão dos procedimentos ou dos proveitos que poderia usufruir de tal gesto.
Talvez por isso, e para que agora pudesse compreender tudo de uma forma diferente, mais tarde na minha vida ( embora ainda cedo, visto só ter 14 anos) entrei em guerra com a comida. Dissequei-a a calorias e gorduras e ás transformações horríveis  que ela produzia no meu corpo. Rejeitei-a, ignorei-a, odiei-a, esqueci-a, tirei-lhe todo o sabor e textura possível.
E vivi, assim, perdida, quase 8 anos.
Claro que as tréguas chegaram mais cedo, por volta dos meus vinte, mas ainda era um relação frágil e insossa, sem forma nem conteúdo. Não era perdão, era simplesmente conformidade: a aceitação de que tinha de comer para viver.
Quando é que tudo mudou?  Não foi nessa manhã fria, foi antes.
Foi mudando aos poucos. Mudou quando provei pela primeira vez comida asiática, ou italiana, ou mexicana.
Mudou quando começei a ajudar a preparar os doces do Natal, ou quando fui pela primeira vez ao Starbucks e bebi o melhor chocolate quente da minha vida com um maravilhoso cupcake.
De cada vez que comia um gelado de café, ou um crepe chinês ia mudando.
Mudei, quando por obrigação me vi deparada com ovos, farinha, açúcar e uma receita de bolo.
E assim, aos poucos comecei a apaixonar-me. E quando dei por mim já ansiava pelos pedidos da minha mãe para fazer as sobremesas, ou pelo requerimento da minha tia para ajudar com o pão.
Lembro-me de ir com o meu Padrinho comprar um fogão de lenha para ela (a tia) e de desejar profundamente ter um também para cozinhar coisas fabulosas e fantásticas. Ia ser o meu caldeirão de poções, a minha janela para saltar.
Aos poucos vi-me a fazer tartes atrás de tartes, a amassar massas, a ver a cozedura apropriada para as bolachas, a inventar recheios e a experimentar sabores e combinações, a pedir encarecidamente que me dessem livros de cozinha, a ansiar ir comer fora e provar novas coisas.
Vi-me a passar horas na cozinha a inventar, com uma frequência ao outro dia, porque tinha de ser. Porque não podia mais fugir a esta vontade estranha e entranhada.
Vi-me a desejar cozinhar para outros, a ver o prazer deles a comer os meus pratos, e a rirem-se desalmadamente da minha cara quando as coisas me corriam mal...porque as coisas às vezes correm-me MESMO muito mal.
Quero tanto fazer as coisas, que me esqueço de seguir as receitas apropriadamente, medir ingredientes, seguir passos. E no fim.. PUF, sai uma desgraça, que só compensa pelo prazer que me dá no processo.
Já não sei como mudar isto, e não quero mudar.
Desejo a possibilidade de poder fazer tudo o que quero, mesmo que o resultado final não seja o melhor. Tentarei e tentarei e tentarei até melhorar. Tenho uma vida inteira para aprender e praticar.
Fugi à questão da laranja e da súbita descoberta do que quero fazer? pois parece-me que sim.
Quanto à descoberta, basicamente decidi que um dia hei-de conseguir ter um negócio(zinho) meu, uma coisa simples que junte comida e livros, pois são a minha grande paixão.. e eu creio que fomos feitos para viver as nossas grandes paixões.
Quanto à laranja, é um segredo descoberto que não sei explicar. Nada me dá mais prazer do que comer uma laranja num dia frio. Uma laranja grande e doce. É estranho como uma coisa fria pode aquecer a alma mais do que qualquer fogueira.
É isso o que as laranjas me fazem. Aquecem-me a alma e fazem-me recordar do meu sonho.
Claro que não caminho só nesta aventura. Tenho tentado aprender as minhas lições através do exemplo dos que já andam nisto há mais tempo que eu  e que sem pretensões revelam aquilo que aprenderam e descobriram, como se fossem tesouros de tal forma preciosos e sublimes que tivessem de ser partilhados.
Ainda me falta muito, mas como já disse chegarei lá. Devagar. Como quem descasca uma laranja sumarenta  ao sol frio de Janeiro e se deixa ficar quieto a sentir o sumo espalhar calor no coração e sentido na vida.


Uma pessoa inspirada que me inspirou no meu percurso:Regina Gaspar